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É O FIM DA BROADWAY BRASILEIRA?

No último dia 24 o Ministério da Cidadania divulgou as novas regras da Lei Rounet, que agora passa a se chamar Lei de Incentivo à Cultura.

A Lei permite que projetos culturais captem patrocínio junto a empresas, que podem em troca abater parte ou todo o valor dos seus impostos. Ou seja, o governo abre mão de recursos para que eles sejam colocados pelo setor privado diretamente no mercado cultural.

A principal mudança na lei é a redução do teto de captação por projeto que antes era de R$ 60 milhões e agora passa a ser de R$ 1 milhão.

Segundo representantes do setor, a mudança põe em risco cerca de 50 mil empregos somente no setor de musicais.

As produtoras de musicais estão entre os maiores captadores de recursos via Lei Rouanet. Duas das principais produtoras, a Time 4 Fun (T4F) e a Aventura Entretenimento, estão no topo do ranking de toda captação feita desde a criação da lei, em dezembro de 1991, de acordo com dados da secretaria de Cultura.

A T4F, responsável pela produção de grandes musicais como “O Fantasma da Ópera”, “Wicked” e “A Bela e a Fera”, está em segundo lugar no ranking com R$223,9 milhões até 2018.

“Wicked” produzido no Brasil pela Time 4 Fun

A Aventura é a 11ª da lista, com R$ 113 milhões captados para musicais como “Hair” e “O Mágico de Oz”.

“Estão decretando o fim da indústria de musicais. Sem incentivos, não tem a mínima possibilidade de produzir. É triste ver todo um trabalho de 18 anos para construir um mercado ser destruído por um simples ato administrativo.” diz Fernando Alterio, presidente da T4F, empresa que teve papel importante na retomada dos musicais no país ao lançar “Os Miseráveis” em 2001.

Alterio diz que os musicais hoje movimentam a economia não só com as próprias produções em si, mas também por meio de uma série de serviços, como alimentação e transporte, em torno delas.

“Há um grande fluxo turístico, porque cerca de 30% do público vem de outras cidades. Estas pessoas ficam de dois a três dias, se hospedam em hotéis, vão a restaurantes”, diz o executivo.

Existe um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que analisou 53.369 projetos e concluiu que, para cada R$ 1 colocado em iniciativas financiadas pela Rouanet, há um retorno de R$ 1,59 para a economia. O impacto total foi de R$ 49,8 bilhões desde a criação da Rouanet.

“Hoje, a indústria de musicais gera aproximadamente 11 mil empregos diretos e 40 mil empregos indiretos. As novas regras vão gerar muito desemprego.”

A Lei Rouanet teve um papel importante na retomada da produção de musicais no país desde o início dos anos 2000, com a entrada no mercado de empresas como T4F e Möeller e Botelho, responsáveis pelos primeiros projetos da nova fase.

A partir de então, grandes produções internacionais foram montadas por aqui e tornaram-se sucesso de bilheteria, abrindo caminho para novas produções. Na esteira destes grandes espetáculos, criou-se uma indústria dos musicais brasileiros, sobre a vida e obra de artistas como Elis Regina, Cazuza, Chacrinha, Tim Maia e Rita Lee.

“Elis, a musical” produzido pela Möeller e Botelho

A injeção de recursos permitiu ainda uma profissionalização da indústria de musicais, dizem produtores.

“A Rouanet tornou possível um tipo de produção que não se sustenta apenas com bilheteria por ser muito cara e trouxe para o nosso ofício algo que não existia: pagar salários aos profissionais envolvidos”, afirma Claudio Botelho da produtora Möeller e Botelho

Mas grandes produtoras, com a experiência de quase duas décadas na produção destes espetáculos e com um interesse evidente do público, que permite que os espetáculos fiquem meses em cartaz, não poderiam conseguir recursos sem ter de recorrer à Rouanet?

Alan Adler, da IMM Live, não acredita nesta possibilidade.

“Vamos tentar, mas acho que não vamos conseguir, porque as empresas adaptaram seus planos de comunicação para investir em projetos disponíveis pela lei. Não é da noite para o dia que todo um mercado consegue se reestruturar.”

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