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TEATRO DO ORNITORRINCO ESTREIA PEÇA SOBRE CONFLITOS FEMININOS

Quem já viu pessoalmente um ornitorrinco? Esse animal quase em extinção mas que continua sobrevivendo e faz muitos pensar que sua existência é imaginária, por ser um animal esquisito, uma mistura de mamífero e ave.

Talvez essas características tão peculiares foram a razão da escolha do nome do Teatro do Ornitorrinco, que há 40 anos faz parte da história teatral do nosso país e estreou na metade de maio o espetáculo “Nem Princesas nem escravas”.

 

 

Mantendo a linguagem que tornou o grupo conhecido com um clima de cabaré, critica politica e muito humor, desta vez o texto é do mexicano Humberto Robles.

“Quase não existe hoje uma dramaturgia para cabaré. E esta é justamente uma peça contemporânea, que trata de questões contemporâneas, dentro dessa estética”, diz o diretor Cacá Rosset

Em cena vemos três mulheres reproduzindo estereótipos femininos que depois invertem as imagens preconcebidas. Christiane Tricerri faz uma servidora sexual que se torna deputada pelo Partido da Mãe, Angela Dipp interpreta uma dona de casa que vira muambeira e Rachel Ripani é uma intelectual que se transforma em patricinha e se casa com um traficante bem mais velho que ela.

“São diversos papéis da mulher, mas que são reconversados. E essas personagens acabam humanizadas, em muitos momentos há uma identificação com a plateia”, explica Tricerri

O grupo foi criado em 1977 pelos alunos da ECA-USP Cacá Rosset e Luiz Roberto Galízia e a docente Maria Alice Vergueiro e desde o inicio o grupo busca a relação com a plateia, com uma produção ao mesmo tempo popular e intelectual.

“Existe uma falsa dicotomia na cultura de que ou você faz uma coisa popular ou você faz um teatro sofisticado, num gueto. O Ornitorrinco sempre quis trazer boas discussões e se comunicar com um espectro diversificado de espectadores. É uma infidelidade fiel, repaginamos o clássico para recuperar as paixões que geraram a obra e coloca-la num perspectiva contemporânea. Nesse sentido, sempre fui fiel, quase monogâmico com os clássicos”, afirma Rosset.

Utilizando essa nova linguagem mesclando cabaré, circo e música, nasceu a primeira peça, “Os mais fortes”, uma reunião de obras de Strindberg encenada no extinto porão do Teatro Oficina que tinha capacidade para 30 pessoas mas eles chegavam a colocar 120.

 

 

Naquele mesmo ano de 1977 fizeram “Ornitorrinco canta Brecht e Weill, depois veio “Mahagonny Songspiel em 1982 e então “Ubu, folias physicas, pataphisicas e musicaes” em 1985. Essas montagens ajudaram na formação de um público novo para o teatro, os jovens.

A audácia e o despudor que continham m seus espetáculos incomodou. Em 1987 a peça “Teledeum” foi censurada com a acusação de ofensa à religião.

Mas essa não foi a primeira vez que as peças do Ornitorrinco causaram incomodo. Em 1974 a docente Maria Alice foi afastada da USP. O motivo foi uma cena em que atuava com o aluno Cacá Rosset numa montagem estudantil. Maria Alice era uma rainha louca e Cacá um toureiro cafetão.

“Tinha uma cena muito singela em que ela ficava de quatro e eu a enrabava. E ela falava: ‘Tudo pelo teatro nacional! Viva Cacilda Becker!’. Enfim, uma cena romântica. Mas não gostaram, abriram uma sindicância e ela acabou sendo expulsa.” lembra Rosset.

 

Cacá Rosset vê hoje o teatro se enfraquecendo, Para ele, houve uma “desprofissionalização”.

“O teatro perdeu, por culpa dele, a importância social e artística que já teve. Antes era sempre o grande evento da noite. Hoje em dia, é um pit stop, quase um esquenta. Quanto mais curto, melhor. Fazíamos sete sessões semanais. Hoje, mesmo uma peça de sucesso faz duas, três. Não há retorno de bilheteria. Virou um hobby. É como uma pessoa que todas as quintas joga bridge.”

Antes de entrar em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso em São Paulo, a peça “Nem princesas nem escravas” testaram o público com sessões em Guarulhos, Bertioga e Caraguatatuba.

“Formar público é uma coisa difícil e de longo prazo”, afirma o diretor. “Agora, para afugentar bastam duas peças ruins.”

 

SERVIÇO:

NEM PRINCESAS NEM ESCRAVAS

Quando? Sábados às 19h30, Domingos às 16h e Segundas-feiras às 20h. Até 9 de Julho

Onde Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno, r. Rua Rui Barbosa, 153, São Paulo

Preço R$ 30,00 inteira e R$ 15,00 meia-entrada (www.ingressorapido.com.br)

Classificação 14 anos

Sobre Daniel Pereira

Um aquariano que vive com os pensamentos no futuro mas tem grande apego com o passado. Apaixonado por arte e Comunicação. Seu maior defeito é fazer mil coisas ao mesmo tempo a ponto de não ter tempo pra mais nada e mesmo assim vive criando coisas novas pra fazer.

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