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A BELEZA E A SUJEIRA PELAS LENTES DE NAN GOLDIN

A artista norte-americana Nan Goldin, cujo trabalho fotográfico foi censurado mais de uma vez no Brasil, é responsável por situar a fotografia contemporânea fora do lugar comum. Através da sua arte, a artista expõe a intimidade da própria vida e de seus próximos na época em que viviam o auge da libertação sexual, política e intelectual do final dos anos 60.

A estética de seu trabalho é marcada pela experiência vivida pela artista, principalmente da década de 60 até meados dos anos 80 e, apesar de ser uma artista ainda ativa, foi nessa época que sua obra atingiu essa personalidade, destacando-a do que havia sendo produzido na mesma linguagem.

Nan Goldin e sua câmera

O contato desde sempre com a cultura do subúrbio de Boston, onde cresceu, e depois com o suicídio da irmã, contribuíram para que Nan Goldin tomasse direções não convencionais na sua formação e educação, independentes da sua família, com quem não possuía vínculos afetivos de fato.

Foi pelo contato com famílias adotivas e com amigos na mesma situação de marginalidade que a fotógrafa encontrou significados para a palavra amor e carinho. Muito embora tenha sido também através dessas pessoas que iniciou suas experiências com drogas e uma certa dose de violência. Suas imagens revelam uma relação intrínseca entre a intimidade afetiva e o desespero do abandono e a auto-destruição.

A falta de pudor em expor de forma crua toda a vulnerabilidade em relação ao seu universo foi determinante para a película de realidade adquirida pela obra da artista. Aquela que faltava na fotografia tão límpida e produzida adotada pela moda e a publicidade.

Nas fotografias de Nan Goldin, a cortina entre a vida real e o registro afetivo são imperceptíveis. O propósito desses registros são mais do que simples cliques como os que produzimos massivamente hoje nas redes sociais. As cenas retratadas por ela possuem uma carga de identidade emocional e de profundidade muito forte, pois são parte do seu próprio drama.

“Meu trabalho veio originalmente de uma estética de imagem instantânea. Imagens instantâneas são para externar amor e para lembrar de pessoas, lugares e momentos. Elas são sobre criar história a partir da gravação de uma história”, explica Goldin.

A estética do instantâneo criada por ela tem como pano de fundo o seu próprio contexto, sem maquiagem ou truques, e seus personagens principais, figuras da cena underground de Boston e posteriormente de Nova Iorque, foram os viciados, os travestis e prostitutas: pessoas que se transformaram em sua verdadeira família ao longo da sua jornada.

The Ballad of Sexual Dependency é uma das séries produzidas por Goldin que contém cenas do submundo entre Berlim e Nova Yorque. Mais do que um exemplo síntese de toda a sua obra, essa compilação virou publicação e teve muitas resistências quando expostas, provando a densidade do material.

As imagens de Goldin trazem um constante embate entre a beleza e a crueza da vida de uma sub-cultura, que embora tenha sido elevada por alguns artistas que emergiram dela, continua contendo aspectos àsperos quando expostos em espaços formais de arte.

O fator delicado exposto por Goldin é algo que pode incomodar quem não esteja preparado a contemplar uma cena tão comum, ou tão banal de um mundo tão particular e obscuro. A artista permite ao espectador uma invasão ao seu diário iconográfico, o qual o belo está intimamente relacionado a veracidade do momento e de um sentimento real.

Para Goldin fotografia era mais sobre honestidade do que sobre qualidade: “Eu não me importava realmente com “boa” fotografia, eu me importava com completa honestidade”.

Confira na galeria abaixo algumas de suas fotografias:

 

Fonte: Modefica

Sobre Daniel Pereira

Um aquariano que vive com os pensamentos no futuro mas tem grande apego com o passado. Apaixonado por arte e Comunicação. Seu maior defeito é fazer mil coisas ao mesmo tempo a ponto de não ter tempo pra mais nada e mesmo assim vive criando coisas novas pra fazer.

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