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Tiganá Santana e toda sua elegância sonora

Tem 3 anos que conheci o trabalho desse soteropolitano com ares de rei africano. Já cheguei a passar um dia inteiro só ouvindo suas músicas, e a cada vez que ouço, é uma descoberta fantásticas de tonalidades sonoras da mais valiosas expressões, hoje eu te convido a conhecer Tiganá Santana, seu violão-tambor e sua voz profunda com suas variadas línguas, que nos levam a um novo olhar sobre elegância rítmica.

click-Rodrigo-SombraDe origem malinke, o nome “Tiganá” designa uma linhagem de pensadores da África Ocidental, parece que a família já antevia o grande filósofo, pensador e artista que chegaria. Capricorniano e filho de Oxalá, determinado, começou a estudar línguas muito cedo, ele compõe e canta em Kikongo, Kimbundo, yorubá, inglês, francês, espanhol e português,  sempre incentivado pela mãe Arany, uma das fundadoras do movimento negro na Bahia e atual diretora do Centro de Culturas Populares e Identitárias, ela sonhava em vê-lo seguir a carreira diplomática, mas a música o arrebatou!

Aos 14 anos começou a estudar violão e aos 16 já compunha em várias línguas africanas e europeias. Começou compondo, para depois cantar suas próprias letras, fez várias apresentações em lugares alternativos em Salvador, e um dos locais que mais o apoiaram foi o Teatro Gamboa Nova, um dos espaços mais respeitosos com os artistas das mais variadas vertentes por aqui. Ele foi o primeiro brasileiro a compor e gravar músicas em idiomas africanos em seu primeiro disco, chamado “Maçalê” (que significa:”o poder do Orixá em mim”), em 2010. O segundo disco saiu em 2012, nomeado “The Invention of Colour” e o mais recente, lançado agora em 2015 que chama-se “Tempo & Magma”, o álbum é composto por dois CDs: “Interior”, com músicas mais contemplativas e mântricas e “Anterior”, com músicas mais cheias de percussão, numa pegada de terreiro, com sons que vibram em frequências deliciosas e repletas de um refinamento melódico incrível! Ele tem o dom e o cuidado de buscar as referências e temperaturas africanas, sem os signos usuais e corriqueiros da temática, sendo sempre surpreendente para todos que o ouvem, esperando mais do mesmo, e se deparam com uma produção requintada, de melódicos elegantes e intensos.

A voz grave e melodiosa que enche suas músicas de emoção, são acompanhadas por instrumentos e instrumentistas muito bem escolhidos, das mais variadas origens, mas dentre eles está sempre o seu violão-tambor, pois em busca de um som que casasse melhor com o alcance da frequência deseja para seu trabalho, Tiganá retira uma das cordas e faz com que seu instrumento com 5 cordas, tenha uma textura mais grave e mais percussiva que sola e discursa em dedilhados virtuosos e tocantes, sons dotados de uma força ancestral que transporta os ouvintes mais sensíveis a um sem fim de sensações.

Religioso, sua música perpassa por sua vivência espiritual quanto Candomblecista, Tiganá é do Terreiro Tumbenci de Mãe Zulmira, em Lauro de Freitas, cidade da região metropolitana de Salvador,  e lá é responsável pelos cânticos e toques sagrados.

“A espera detona os explosivos por não pertencer ao tempo. E, no que não pertence ao tempo, repassa-o às mãos da realidade”, em 2013 nasce “O Oco-Transbordo”, lançado pela Rubra Cartoneira Editorial, um livro de poesias, onde se fundem os questionamentos filosóficos, os saberes poéticos e vivências de quem roda o mundo interno e externo, de si e do outro e como tudo que Tiganá faz, há um convite ao profundo, aos recônditos da alma, há uma serena e poderosa introspecção que nos faz crescer, sentir e pensar.

Presenciei um dos shows realizados por esse virtuoso artista aqui em Salvador, esse som peculiar e inominado, que a necessidade de rótulos não consegue alcançar… apenas 3 homens no palco, um percussionista, um contra-baixista e ele próprio com o inseparável violão-tambor… um dos shows mais tocantes e fortes que já presenciei! A riqueza harmônica, o som de grande sofisticação, a voz melodiosa que combina tão bem com tudo que é ali tocado e cantado, o homem simples, evidentemente tímido, de fala mansa e olhos doces, um menino de 32 anos, dotado de uma bagagem artística e espiritual que tornam sua reverência ao sagrado um primor!

Vida longa, feliz e saudável a você, Tiganá Santana, que Oxalá mesmo o abençoe e cuide, e que Èsù abra seus caminhos ainda mais, acompanhando-o nesse encontro com nossa ancestralidade e devolvendo-nos tudo que encontra em forma de arte, com tal requinte e beleza, que nosso povo ancestre se sinta feliz e satisfeito, como tenho certeza que estão com tudo que você já construiu em tão pouco tempo de vida. Asè!

Acompanhe a agenda de Tiganá Santana em sua fan page no Facebook

No vídeo um pouco do som poderoso desse baiano que merece muito ter seu talento amplamente reconhecido aqui dentro, como já é lá fora.

 

 

Aqui uma das músicas do seu trabalho mais recente: Mon’ami do álbum Tempo & Magma

About Andréa Magnoni

Fotógrafa, ativista "afro-trans-feminista", leonina, filha de Yansã e completamente fora da caixinha. Site: www.andreamagnoni.com.br

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