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Aislane Nobre e as cores da fé ancestral

A sétima mulher negra a ser homenageada nesses primeiros passos da coluna Arte Não-Normativa é uma talentosa artista plástica de apenas 25 anos, hoje eu te convido a conhecer Aislane Nobre e seu delicado trabalho de desenhar Orixás e tudo que envolve a diáspora africana, em sgraffito.

Foto: Daniel Pita
Foto: Daniel Pita

Aislane nasceu na histórica Ilha de Itaparica (BA), teve uma infância simples, mas repleta de amor e cuidados e onde sempre se priorizaram os estudos como alavanca para uma nova realidade social. Teve também a sorte de conviver até os 6 anos com o avô Arivaldo Nobre, e talvez premeditando que teria pouco tempo para desfrutar dessa valiosa companhia, vivia a seu lado, ouvindo suas histórias, aprendendo sobre a religião e a vida, reconhecendo nele o alicerce da sua formação moral e política de hoje. O avô foi um homem amoroso e um Sacerdote do Culto a Egungun, no Ilê Agboulá, uma religião que cultua os ancestrais masculinos em ritos cheios de encantamento.

Ela não se lembra exatamente quando começou a desenhar, pois sua aptidão nata se misturou à ludicidade infantil e com o tempo a maturação de seus traços foram consequência do prazer dessa expressão artística e de sua própria maturidade emocional. Hoje ela é estudante de artes plásticas na Universidade Federal da Bahia, mas à época do vestibular, teve que ser persistente, pois a família desejava que ela ingressasse na área de saúde e então ela pergunta à mãe: “E quem disse que eu não vou cuidar dos outros com os meus desenhos?”, no período ela ainda não havia começado a desenhar Orixás, e como uma profecia que se cumpre, é através da retratação das divindades africanas que Aislane é reconhecida e tem feito seus mais belos trabalhos.

Além do avô Arivaldo, dedicado ao Culto a Egungun, ela também teve como referência religiosa o irmão dele, seu tio-avô: Moacyr Nobre, Ogun toshi, que foi um dos maiores Babalorixás do Candomblé em Salvador, e o fato de ter várias pessoas da família iniciados nas duas religiões, sem dúvida fomentou o conteúdo intelectual e estético que expressa em seus desenhos hoje. “Os Orixás já tinha me pegado no colo desde o ventre de minha Mãe, e eu corria disso… foi a arte que me levou de volta de onde eu nunca deveria ter saído! Me encontrei nos meus traços, desenhando a minha historia, desenhando Ogum! Foi ele, o Orixá dos caminhos que me abriu os sentidos pra essa jornada e foi me mostrando o que eu iria fazer da minha vida. Hoje sou uma adepta, no terreiro da minha família e a arte se tornou o meio que eu encontrei para homenagear os meus ancestrais e mostrar suas belezas ao mundo.”, diz Aislane.

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Ela trabalha há 4 anos no MAFRO – Museu Afro brasileiro da Universidade Federal da Bahia que fica no Pelourinho, atua com arte-educação, coordenando um projeto chamado Linguagens Pretas, um projeto criado para incentivar crianças e adolescente a assumirem a sua identidade e a falarem, pesquisarem mais sobre a sua própria cultura. Paralelo ao seu trabalho no museu, Aislane dá vida e cor à desenhos belíssimos, em sua maioria feitos com a técnica sgraffito, que significa riscado em italiano, onde se risca uma camada, revelando cores contrastantes a ela no fundo, como mostra o vídeo no final desse artigo. Já fez algumas exposições dos seus desenhos e atualmente está vendendo e também fazendo seus desenhos sob encomenda através de sua fan page no Facebook, são Orixás, ferramentas de Orixás, homens e mulheres negros, adereços característicos das religiões de matrizes africanas e muita beleza envolvida. Dona de traços refinados e extremo bom gosto na escolha das cores, alguns desenhos deixam claro que se trata de um processo de conexão de extrema sensibilidade e devoção.

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Seu maior sonho nesse momento, tem a ver com empoderamento de crianças e adolescentes negros através da arte, da forma como ela própria se encontrou: “Anseio fazer com que elas se enxerguem, enxerguem sua beleza, respeitem seus cabelos, respeitem os seus ancestrais, os seus próximos, e eu acredito que a arte é o caminho viável para esse encontro. Na arte você se expressa, se conhece, revela o que tem de mais oculto em você e se encontra. Ela se torna um refúgio e pode se tornar um paraíso. Então o meu projeto audacioso é dar oficinas para o máximo de pessoas que eu puder , oficinas artísticas que visem o reconhecimento e fortalecimento identitário dos participantes.”.

Quando questionada sobre uma mensagem para outras mulheres negras Candomblecista, ela diz: “Que ninguém abaixe a sua cabeça, ela tem que estar erguida o tempo todo, você só tem que reagir, responder a altura, estudar, tornar os seus dias melhores e levar de volta para os seus irmãos tudo o que conseguiu. É assim que vamos acabar com o preconceito de cor e social, a partir do momento que nós nos ajudarmos!”.

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Toda magia contida em cada traço das cores que se revelam abaixo da capa de tinta preta, evidenciam o cumprimento de uma missão amorosa e potente de tocar o outro através da arte, o que, aliás, é bastante simbólico, pois é sob o manto da cultura africana que estão as nossas maiores riquezas: nossas cores, sons, ritmo, culinária, religião, filosofia e uma gama de valiosas referências que nos foram negadas por racismo.

Aislane Nobre é uma dessas missionárias que a arte escolheu para falar das belezas afro-diaspóricas nas suas mais variadas vertentes. Vida longa, feliz e saudável a você, filha de Oyá, que Ela mesma te encha de prosperidade e criatividade sempre! Parabéns por sua arte, por sua consciência política, parabéns por fazer a diferença em seu meio e honrar sua ancestralidade.

Aqui o endereço de sua página no Facebook onde se pode conferir mais do seu trabalho e até fazer encomendas.

Nesse vídeo mostra um pouco da forma como Aislane trabalha a técnica do sgraffito.

About Andréa Magnoni

Fotógrafa, ativista "afro-trans-feminista", leonina, filha de Yansã e completamente fora da caixinha. Site: www.andreamagnoni.com.br

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Um comentário

  1. Excelente matéria, e muito orgulho pelo trabalho das duas amigas e talentosa artistas!

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