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Nildinha Fonseca – Rainha Guerreira

Foto: Andréa Magnoni
Foto: Andréa Magnoni

A primeira vez que a vi,  ela estava a fazer o que mais gosta: dançar! Lembro de ter comentado com uma amiga: “Que mulher incrível!”. Hoje eu te convido a conhecer um pouco de Nildinha Fonseca, primeira bailarina do Balé Folclórico da Bahia, a única companhia profissional de balé folclórico do Brasil!

Como eu fotografo muitos espetáculos, estou sempre às voltas de atores, diretores e bailarinos, e é muito interessante ouvir algumas conversas paralelas:

“- Bóra cumê água quando terminar aqui? (cumê água na Bahia, é sair para beber)

  – Vô não… amanhã tem aula com Nildinha…

  – Oxi, pró Nildinha é barril dobrado véi!” (barril dobrado é sinônimo de algo muito difícil)

Ou as justificativas de quem não está conseguindo acompanhar o ensaio e todo mundo no entorno não questiona e entende que a pessoa está “quebrada” e dolorida pois teve aula com Nildinha. Tida como uma das professoras de dança mais talentosas e dinâmicas, dona de um pique invejável e uma técnica precisa, fazer aula com ela se torna um desafio de resistência e crescimento quanto bailarino, tanto pela disciplina rígida, quanto pela qualidade física e artística que se adquire após beber dessa fonte inesgotável de arte, força e determinação.

Foto: Joá Souza
Foto: Joá Souza

Nossa heroína não teve uma história muito diferente de nenhuma das outras grandes mulheres apresentadas até agora nessa coluna. Ela vem de uma família pouco abastada, viveu na periferia e perdeu o pai ainda em tenra idade, aquele que mesmo com todas as dificuldades a tratava como uma princesa, como ela sempre diz… foi um duro golpe, mas também a incentivou ainda mais a vencer.

Nildinha começou a dançar aos 16 anos, com o pioneiro Mestre King, e mesmo com uma bagagem consistente, aos 18 anos, em 1988, ela ingressa no Balé Folclórico da Bahia como camareira, já que era a única vaga disponível. De personalidade forte e foco admirável, ela passava as roupas e preparava tudo no camarim, mas corria para as coxias sempre que podia para apreciar os ensaios e apresentações, até que um dia, uma das bailarinas não pode seguir com a companhia em uma turnê e ela pediu uma oportunidade para mostrar sua dança, estabelecendo-se a partir daquele momento como bailarina fixa da companhia até hoje! Dentre tantos grandes mestres, Nildinha tem especial gratidão e afeto por Zebinha (José Carlos Arandiba – ainda vamos falar dele aqui), um dos maiores bailarinos e coreógrafos do Brasil.

Com um currículo invejável: é professora do BFB e da Funceb (Fundação Cultural da Bahia), realizou várias turnês, workshops e oficinas de Dança Afro Contemporânea e Danças Religiosas em várias cidades Brasileiras, Européias, Norte Americanas, Australianas e em Países Nórdicos. É preparadora técnica, dançarina/solista, coreógrafa e assistente  de coreografia, assinando shows de artistas consagrados como Daniela Mercury e Carlinhos Brown e várias companhias de dança renomadas. Participou como colaboradora de projetos de educação na cidade, na área de Dança Educação e desenvolve um trabalho humanizado de sensibilização de crianças, jovens e adultos de baixa renda através da dança, modificando vidas através do exemplo, do conselho e da preparação para o mercado de trabalho artístico.

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Nildinha Fonseca entre a diretora Fernanda Júlia e o mestre Zebrinha durante a entrega do Prêmio Zebrinha de Pretas Artes

Filha de Obá, Oríxá que é a Rainha das Guerreiras, Nildinha Fonseca tem papel incisivo na comunidade como ativista nos movimentos negros, afro-feministas e artísticos. Mulher audaciosa, sábia e aguerrida, luta de forma visceral por tudo que acredita, mas em meio à intensidade da sua força e presença impactante, existe a mulher acolhedora e generosa, sempre pronta a proteger e incentivar.

Linda, altiva, longilínea, exuberante, ela desfila pelos palcos do mundo com sua vasta cabeleira vermelha ou com seus turbantes magníficos, e não deixa a mínima dúvida: é uma legítima descendente de poderosas rainhas africanas, que através de sua vivência intensa com o sagrado ancestral, os reverencia com a arte que habita seu corpo, tocando, emocionando e transformando tudo à sua volta.

Vida longa, saudável e feliz à você, Nildinha Fonseca! Bela filha de Obá, Yabá que tanto amo! Que sua Mãe mesmo lhe proteja e abençoe, mantendo-a sempre com seu Orí resplandecente e criativo, presenteando-nos com sua arte e presença. Olorum Modupé por seus feitos artísticos, mas a gratidão é ainda maior por todas as vidas que você modificou.

Seguem alguns vídeos onde a presença marcante dessa mulher guerreira e dançante hipnotiza e emociona.

 

Sobre Andréa Magnoni

Fotógrafa, ativista "afro-trans-feminista", leonina, filha de Yansã e completamente fora da caixinha. Site: www.andreamagnoni.com.br

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