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Mãe Stella de Oxóssi – 90 anos de resistência

Depois de muito pensar, decidi que as 7 primeiras postagens serão sobre mulheres negras de múltiplas áreas, mas com histórias nem sempre muito diferentes… por isso tarda o dia em que o feminismo olhará com olhos de ver para as pautas das mulheres negras, que desde outrora são muito urgentes e necessárias, mas voltemos à homenageada de hoje… eu convido você a conhecer a escritora, imortal da Academia de Letras da Bahia e Iyalorixá Mãe Stella de Oxóssi! 

Maria Stella de Azevedo Santos, mulher negra de Asè, taurina, nascida em 1925, enfermeira de formação, Iyalorixá por missão espiritual. Ela é filha de Oxóssi, o Orixá caçador, da mesa farta e obstinação. Aos 14 anos foi iniciada no Candomblé e recebeu o Orucó (nome) de Odé Kayodê e em março de 1976, aos 51 anos, é escolhida para ser Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, um dos terreiros mais antigos e respeitados da Bahia, passando a ser conhecida por Mãe Stella de Oxóssi – Odé Kayodê.

Mãe Stella (1)Por conta de sua sabedoria, mente crítica e consciência política, a sacerdotisa acabou por impactar alguns costumes arraigados do Povo de Santo, questionando, por exemplo, o sincretismo com o catolicismo, extinguindo no Ilê Axé Opô Afonjá os ritos oriundos desses hábitos de miscigenação religiosa, pensamento que acabou por se propagar por várias outras Casas de Santo. O sincretismo é uma forma de aglutinação de culturas, que no caso do catolicismo, é um sistema de apagamento, onde a figura do Santo católico aparece como uma “máscara” sobre a do Orixá, com a intenção futura de que apenas a primeira imagem, eurocêntrica, permaneça e seja lembrada, mas Camdomblé é feito de resistência, e mesmo com a imposição de que Yansã era Santa Bárbara, que Omolu era São Lázaro e que os Ibejis eram Cosme e Damião, não só os Orixás se mantiveram lembrados e fortes, como os costumes culturais da religião afro-brasileira é que prevalecem nas festas a esses Santos católicos até hoje.

A Iyalorixá foi colunista do Jornal A tarde, palestrante de várias conferências sobre o ativismo do Povo de Santo, mas principalmente por sua importante contribuição literária, que em 2013 Mãe Stella foi eleita para ocupar a cadeira de número 33 da Academia de Letras da Bahia. Entre seus livros estão:

“E Dai Aconteceu o Encanto” – 1988
“Meu Tempo é Agora ” –  Editora Oduduwa, 1993
“Lineamentos da Religião dos Orixás – Memória de ternura”- Cléo Martins, 2004; participação especial de Mâe Stella
“Òsósi – O Caçador de Alegrias” – 2006
“Owé – Provérbios” –  2007
“Epé Laiyé- terra viva”- 2009.
“Opinião – Maria Stella de Azevedo Santos – Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá – Um presente de A TARDE para a história”, reunião de textos publicados no jornal A TARDE na coluna “Opinião”.”Odu Àdájo – Coleção de Destinos” – 2013

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Livro “Mãe Stella de Oxóssi – Estrela nossa, a mais singela!” – 2014

Mulher forte e determinada, aos 90 anos, acaba de ser condecorada com a mais importante medalha da Bahia, a Comenda 2 de Julho, que é concedida a pessoas que tenham contribuído ao desenvolvimento político e administrativo da Bahia e do Brasil. Aliás, a Iyalorixá está mais que acostumada a receber prêmios, em 2001 ganhou o prêmio jornalístico Estadão na condição de fomentadora de cultura. Ao completar setenta anos de iniciação no Candomblé, em 2009, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia. É detentora da comenda Maria Quitéria (Prefeitura do Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e da comenda do Ministério da Cultura. Em 2010, recebeu uma placa pelo centenário do terreiro Opó Afonjá, das mãos da vereadora Olívia Santana e do Ministro da Cultura, Juca Ferreira.

Mãe Stella de Oxóssi representa uma nova realidade entre os adeptos do Candomblé, que cada vez mais é composto por pessoas com formação acadêmica. Muitos estão catalogando e estudando a tradição oral ancestral, que é a base dessa religião e levando para a academia toda rica filosofia e vasto conhecimento da medicina natural, além da belíssima estética e fantástica cultura artística de ritmos, sons e movimentos afro-diaspóricos. A importância de Mãe Stella para a história do Candomblé no Brasil é imensa, uma mulher de fé que transformou paradigmas e luta incansavelmente pela justiça e contra a intolerância religiosa. Olorum Modupé, Mãe Stella de Oxóssi Odé Kayodê, que Odé mesmo lhe cubra de bênçãos e saúde.

Segue um vídeo com uma entrevista concedida por Mãe Stella

 

 

 

Trechos de um dos belos textos de Mãe Stella:

“…O outono chegou! Engraçado…Vi e ouvi propagandas de Festival de Inverno, Festival de Verão, escolas festejando o Dia da Primavera, mas nenhuma comemoração para a chegada da estação das folhas secas, que se desprendem das árvores e caem na terra – o Outono. Por que será? Perguntei-me. E me dei conta que, perto de completar 86 anos, experimento o outono da vida. Entretanto, não é porque as folhas caem, que os velhos devem se permitir cair também, pois a filosofia yorubana nos ensina: “Ìbè.rè. àgba bi a ánànò ló ri”, que quer dizer, “mesmo quando o velho curva o corpo, ainda continua de pé”.”

“…O candomblé é considerado uma religião primitiva. Geralmente, isso é dito com um sentido de desvalorização. Contudo, uma religião é tida como primitiva por ser de origem primeira, original, vinda desde os primeiros tempos. Na referida religião, como em muitas outras de procedência oriental, e nas tribos indígenas, o velho é muito valorizado, ele é considerado um sábio, tendo uma condição de destaque e respeito.”

“…Para o bem da sociedade, o povo yorubá diz: “ola baba ni imú yan gbendeke”, mostrando que “é a honra do Pai que permite ao filho caminhar com orgulho”. E eu digo: Todo pai é um mestre e todo filho é um discípulo!”

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Trechos extraídos do texto “Outono da Vida”

Fonte: Jornal “A Tarde” de Salvador, Bahia, publicado em 13/04/2011

Sobre Andréa Magnoni

Fotógrafa, ativista "afro-trans-feminista", leonina, filha de Yansã e completamente fora da caixinha. Site: www.andreamagnoni.com.br

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