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Fernanda Júlia e o Poder do Asè nos Palcos e na Vida  

Quando fui convidada a escrever uma coluna ao Portal Cenário Cultural, sugeri que ela fosse sobre a arte das minorias, a arte dos marginalizados e ao inquirir sobre quem seria a primeira pessoa a ser homenageada, não encontrei outra senão Fernanda Júlia! Hoje eu te convido a conhecer essa diretora teatral baiana e ativista afro-feminista. Tinha que ser ela tanto pelo mérito da sua luta, arte e resistência, quanto por carregar em si, tantas bandeiras humanas que desafiam o padrão social vigente.

A vida e os normativos nunca foram muito gentis com Fernanda… ela, então, mostrou quem é que manda! Descobriu-se, aceitou-se, formou-se na UFBA (Universidade Federal da Bahia), hoje é mestranda pela mesma instituição e pesquisa esse teatro que leva para os palcos de forma brilhante junto ao NATA (Núcleo Afro-Brasileiro de Teatro de Alagoinhas), do qual é diretora e uma das fundadoras, há 17 anos e sempre explicita que tudo que alcançou é devido a esse trabalho coletivo e a todos os mestres e mestras que passaram e passam por seu caminho.

Ressalto aqui alguns outros trabalhos da diretora: “Ogum – Deus e Homem”,  “Oyaci – A Filha de Oyá” e “Kanzuá – Nossa Casa”. Junto ao NATA, cito: “Popoesia” e “Siré Obá – A Festa do Rei”. mas foi com “Exu – A Boca do Universo” que o NATA ampliou seus horizontes – literalmente – e hoje viajam pelo Brasil através do Palco Giratório, e se propõe a desconstruir a imagem demonizada e errônea que se tem sobre o mais irreverente dos Orixás. Todos os espetáculos tem música ao vivo, muita dança e são esteticamente impecáveis, o que já é uma marca do grupo.

Cena de "Exu - A boca do universo" Foto: Andréa Magnoni
Cena de “Exu – A boca do universo”

Filha mais velha da Iyalorixá Rosa de Oyá. Iyákekerê do terreiro Oyá L’adê Inan, esposa apaixonada da Ekedji Jai Santos, Fernanda perpetua uma linhagem de mulheres negras de Asè, mulheres fortes e nordestinas, herdeiras do orgulho da ancestralidade africana e sempre ressalta a importância do Candomblé em sua vida, dentro e fora do teatro.

Fernanda Júlia
Fernanda Júlia

Mulher de personalidade forte e pulso firme, voz grave e energia contagiante, Fernanda Júlia impressiona pela sabedoria, inteligência e grandes feitos em tão pouca idade. É fácil ver círculos de pessoas à sua volta, ouvindo embevecidos sua forma apaixonada e alegre de falar sobre o Candomblé, sobre o teatro e a vida, uma verdadeira Griô, que tira sorrisos fáceis e lágrimas incontidas, simplesmente fazendo o que mais gosta: compartilhar com amor, arte e fé tudo que povoa sua essência.

E mesmo vivendo em um sistema cruel que impõe compulsoriamente o embranquecimento, a magreza, a heteronormatividade, a cristianização e a subserviência feminina como naturais e que tudo fora disso será implacavelmente combatido, Fernanda Júlia é uma corajosa sobrevivente em meio a esse caos social. Essa filha de Omolu é dessas mulheres que nos sacodem, que nos fazem pensar sobre nosso papel no mundo e nossa responsabilidade sobre tudo aquilo que se perpetua por nossa falta de questionamento e ação.

Vida longa, saudável e criativa à Fernanda Júlia! Que venham seus títulos, seus livros, seus espetáculos como lição de vida para nos tirar do lugar comum. Olorum Modupé, Fernanda! Todo orgulho do mundo em tê-la como amiga pessoal. Fiquem ligados nesse nome… essa mulher ainda vai dar muito o que falar!

 

Acesse a Página do NATA no Facebook

Para quem tiver interesse em assistir a “Exu – A Boca do Universo” no Palco Giratório, na fan page do NATA existe um app para celular com todas as datas e locais que eles ainda irão passar e inclui: Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Rondônia, Ceará e Bahia. Aproveitem!

Confira um trecho do espetáculo:

Galeria de Fotos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Sobre Andréa Magnoni

Fotógrafa, ativista "afro-trans-feminista", leonina, filha de Yansã e completamente fora da caixinha. Site: www.andreamagnoni.com.br

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