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Marcelo Rubens Paiva trata da relação com a mãe em novo livro

O escritor Marcelo Rubens Paiva, conhecido por Feliz Ano Velho, lança Ainda Estou Aqui (R$39,90, Ed. Objetiva, selo Alfaguara), um relato sobre sua relação com sua mãe, Eunice, e sobre o desaparecimento do pai, o deputado federal Rubens Paiva, cassado no golpe de 1964, torturado e morto por militares em 1971.

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No ano passado, a Comissão Nacional da Verdade conseguiu elucidar o caso do desaparecimento de seu pai, um dos mais emblemáticos da ditadura: no segundo dia de tortura, Rubens Paiva não resistiu e seu corpo foi enterrado e desenterrado antes de ser lançado ao mar, confirmaram as testemunhas. “O Ministério Público Federal conversou com os torturadores que estavam presentes quando ele foi morto. Isso foi o ponto de partida (para escrever o livro)”, afirma Marcelo a O Globo.

O autor também afirma, na mesma entrevista, que as manifestações pedindo a volta da ditadura foram essenciais para que ele escrevesse o livro. “(…) comecei a ficar muito assustado. Aí senti essa necessidade de escrever um livro dizendo o que foi a ditadura. O que foi a saga de uma família que sofreu com a ditadura. Eu me lembro de navios de guerra chegando à Praia de Ipanema no dia do AI-5, todo mundo tomando sol, na praia, os detalhes da prisão dos meus pais, eu com 5 anos sem pai e sem mãe, depois o desaparecimento do meu pai, o luto da família, a luta da minha mãe pela anistia, pelas Diretas Já, pela Constituinte”.

Eunice e Rubens Paiva (Divulgação)
Eunice e Rubens Paiva (Divulgação)

Porém, o livro vai além de contar a história de Rubens Paiva e acaba sendo um acerto de contas com sua mãe, personagem fundamental na luta da família contra a ditadura, que hoje sofre de Alzheimer. Marcelo confessa que não teria escrito a história se a mãe não estivesse com a doença. “Ela era a porta-voz da família, sabia os detalhes, tinha uma inteligência afetiva muito superior a todos nós. Cheguei a comentar com ela sobre o livro, no fundo acho até que ela sabe… Mas hoje são muito poucos os momentos de lucidez”, diz.

Confira a entrevista para O Globo.

Trecho de Ainda Estou Aqui:

Num workshop americano de um grupo de apoio com doenças variadas, foi sugerido a cada um escrever o nome da sua doença e colocar sobre a mesa. Depois, cada um se levantava e escolhia outra doença. Surpresa. Ninguém trocou de doença. Ninguém preferiu uma doença que substituísse a sua. Preferimos a nossa a recomeçar a vida com outra. Ela, conhecemos. É nossa. Aquilo que alguns consideram diferente deve ser interpretado como identidade. Nossa doença forma a nossa identidade.

Ela estava no Estágio iii quando a Comissão Nacional da Verdade foi instaurada, o mpf-rj começou a ação contra torturadores, documentos dos arquivos do coronel Molina, morto em Porto Alegre em 2014, provaram a prisão do meu pai, depois confirmada por Malhães, também morto em seguida, e a farsa que ela atacou por décadas e a intrigou foi enfim desfeita; os caras que diziam que meu pai fugira vieram a público e desmontaram a versão oficial. Ela não registrou em seus pensamentos que se criou a Comissão da Verdade Rubens Paiva em São Paulo, inauguraram-se bustos dele no Congresso e na Estação Engenheiro Rubens Paiva do metrô, que documentos surgiram, depoimentos, a morte e o desaparecimento foram sendo contados. Ele saía diariamente nos jornais, às vezes na capa, sempre nos telejornais. Uma escola de samba carioca quis fazer do meu pai o enredo do Carnaval de 2015. Não nos empolgamos. Eles desistiram.

Em 2014, Rubens Paiva, ele mesmo, morto, ganhou o prêmio Vladimir Herzog de jornalismo. Em 2012, uma reportagem da Miriam Leitão sobre Rubens Paiva já tinha ganhado o mesmo prêmio. O que não aconteceu em décadas, aconteceu em meses. No ano em que o golpe de 64 fez cinquenta anos. Um busto na pracinha em frente ao antigo doi-Codi, na Tijuca, foi inaugurado. Fui à Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, e, para mais de mil pessoas, li um texto em sua homenagem e chorei. Um texto que dizia “a família Rubens Paiva não chora em público”. Ela não tem ideia dessa homenagem.

Um dia apareci na casa dela. A tv na sala, sempre ligada. Nunca reprimi a tv na sala estar sempre ligada. Nenhum livro por perto. Nessa fase, tv era um chiclete para os olhos. Nessa fase, meu filho a reconhecia, e ela o reconhecia. Ele estendia os bracinhos e queria ir para o colo dela. O que a derretia completamente. Ele ia. Puxava o cabelo dela. Era a fase em que, com ele já na escola, começamos a proibi-lo de puxar os cabelos dos outros (o meu, sempre deixei, escondido da mãe, claro). Então, antes que tirassem a mão dele do cabelo dela, ela disse:

— Ele pode…

Enquanto eu papeava com a cuidadora, me desliguei, até ouvir minha mãe chamar nossa atenção:

— Olha, olha, olha!

Olhamos, nada de estranho, meu filho estava confortável no colo dela, comendo o braço da cadeira de rodas. Ela apontou trêmula para a tv e começou a dizer, aflita, chamando a nossa atenção e a atenção da própria memória:

— Olha, olha, olha!

Na tv, um noticiário sobre Rubens Paiva. Neste 2014, apareciam todos os dias notícias sobre o caso Rubens Paiva. Todos os dias, novidades. Ela sentadinha inerte na cadeira de rodas. Apareceram fotos dele de arquivo na tela. Era a foto do seu ex-marido, era o nome dele, falavam dele, desvendavam segredos sobre a morte dele:

— Olha, olha, olha!

Ela olhava. Com lágrimas. Ouviu a notícia. Começou a dizer baixinho:

— Tadinho, tadinho, tadinho…

Sobre Carolina Carettin

Caipira e graduanda em Jornalismo. Já quis ser detetive, psicóloga e primeira bailarina do Bolshoi. Desistiu das duas primeiras carreiras, mas ainda dança, nem que seja só a macarena.

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