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Pedro Spigolon compartilha seu Espanto

Depois de nossa conversa, a única coisa que conseguia pensar em fazer era ler seu livro. O que Pedro compartilhou ao me explicar sobre Espanto foi tão marcante que voltei para casa, sentei em minha cama e passei duas horas lendo sua poesia. Nossa poesia. A poesia de todos nós.

Pedro Spigolon no lançamento de Espanto, em Araras. Foto: Carolina Carettin
Pedro Spigolon no lançamento de Espanto, em Araras. Foto: Carolina Carettin

 

Lançado pela Editora Medita, Espanto é o primeiro livro da Coleção Galo Branco, um projeto contemplado pelo Edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural (ProAC) “Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros – coleção de obras inéditas – no Estado de São Paulo”. O livro, segundo o autor, Pedro Spigolon, é “quase uma desconfiança de que aquilo não seja só aquilo mesmo”. “Pra mim o espanto é um método poético”, explica. “Porque às vezes a vida é muito cotidiana, só que aí a gente tem vislumbres e parece que é um tempo diferente que a gente vive, sabe?”.

Sim, eu sei. De versos ritmados, curtos e extremamente imagéticos, Espanto é  tudo aquilo que passa despercebido por todos nós, todos os dias. O livro é dividido em três partes: Eternidade Abandonada, Propaganda do Inferno, Espanto nosso de cada dia. Para Pedro, há um trabalho metódico em se fazer poesia, mas também é preciso vivenciá-la, senão não há o que falar.

“É preciso assassinar-se
para assassinar.
É sempre no nosso avesso
onde fartam-se os corvos
É sempre no nosso corpo
onde a mentira tem seu começo.”

Trecho de A Mentira.

Um CD com declamações de 11 poemas foi lançado pelo Studio Grama. Foto: Carolina Carettin
Um CD com declamações de 11 poemas foi lançado pelo Studio Grama. Foto: Carolina Carettin

 

Para explicar o fazer poético, o autor usa uma frase de Rimbaud: “Eu é um outro”. Assim, o poeta compartilha do eu de várias outras coisas, lugares, pessoas. “A partir desse contato, dessa compaixão, no sentido de compartilhar o sentimento, você consegue expressar o que vivenciou”, explica. “É como uma esponja: chega uma hora que o poeta não consegue mais absorver a ‘água’ e transborda. E aí transborda em verso.”

*

Cenário Cultural: Como você conheceu a editora?

Pedro Spigolon: Conheci algumas pessoas da editora na faculdade (Pedro graduou-se em Sociologia pela Unicamp) e começamos a ir em saraus, fazer coisas juntos. Criou-se uma revista literária, a euOnça (em 2013), e eu publiquei nos três primeiros números da revista e num número espanhol, a yoJaguar. Nós já tínhamos uma proposta de publicar um livro meu e quando saiu o edital do ProAC, resolvemos inscrever o projeto da Coleção Galo Branco. São sete autores, cada um com um livro com tiragem de 1500 exemplares. Um número muito bom para uma editora pequena.

Foto: Carolina Carettin

CC: E como foi lançar o livro em Araras, sua cidade natal?

PS: Eu fiz dois lançamentos até agora, em Araras e em Campinas, e foram muito diferentes um do outro. O daqui (Araras) foi mais formal, até. Foram muitos grupos diferentes: gente mais velha, gente que não me conhecia e que ficou sabendo do lançamento, meus amigos, familiares, amigos dos meus pais, professores. Foi uma noite incrível, porque as pessoas estavam lá e curtindo de verdade. Com a apresentação musical, as pessoas ficaram mais tempo, ficou um ambiente agradável. Lá em Campinas foi o lado B, foi mais delírio. O pessoal que foi era mais jovem, da faculdade, teve uma intervenção poética, teve música também. Ver o carinho das pessoas foi bem sincero, verdadeiro. Fiquei muito feliz.

CC: As fotos do livro ficaram expostas no lançamento. Como foi a produção delas?

PS: Eu conversei com o Pedro (Spagnol, que assina as fotografias do livro) e dei três objetos para ele trabalhar em cima: a língua, a tesoura e a pedra. São objetos que eu tenho uma lembrança muito forte e que tem um significado para mim. A tesoura usada nas fotos, por exemplo, é da minha família e era usada para cortar os pelos dos cavalos. Não é só a ilustração da poesia, é mais que isso. Foi um trabalho em conjunto. Outra coisa legal do livro foi a produção da apresentação e do posfácio. A apresentação foi feita pelo Gil T. Sousa, com quem só troquei mensagens pela internet, e o posfácio é de um grande amigo meu, o Diogo Henrique Cardoso, que viu cada uma dessas poesias nascerem. Dá essa sensação ao leitor de que, ao terminar o livro, ele me conhece mais e no começo do livro você não me conhecia, sabe?

Foto: Carolina Carettin
Foto: Carolina Carettin

CC: Como você vê a poesia inserida no mercado editorial atual?

PS: Nosso país tem pouquíssimos leitores. Se compararmos com a Argentina, um país vizinho, o número de leitores lá é infinitamente maior. Trabalhei numa livraria e tive a experiência de ver que tipo de livro o público procura. Em primeiro lugar, literatura norte-americana, os best sellers. Depois, literatura evangélica e, por fim, auto-ajuda. De vez em quando, quase nunca, entrava alguém interessado em literatura brasileira, em poesia. É um mercado muito pequeno.

CC: Mesmo sendo um mercado pequeno, você percebeu um retorno do público em relação ao livro?

PS: Eu estou até espantado [risos] pela procura pelo livro. Muitas pessoas estão vindo falar comigo, se interessando, querendo comprar. Tá rolando, mas é muito difícil. Eu já coloquei pra mim que eu não faço para ganhar dinheiro. Claro que eu faço de forma profissional, mas acho que o caminho não seria atrelar a minha vida financeira a isso. Não por uma questão ideológica, que eu não possa ganhar dinheiro com isso, porque se eu fiz, é bem feito, e as pessoas querem pagar por isso, eu acho justo. Todo mundo vende seu trabalho e com o artista não deve ser diferente. Porém, quando você começa a atrelar sua estabilidade financeira a algo, tem que fazer não só o que quer fazer, mas o que te pedem pra fazer. E aí eu ia ter que começar a escrever coisas que não me interessam. Realmente, quero manter minha vida poética fora disso.

“Qualquer apelo é inútil
rezar nem se fala.
Não há onde esconder esse desespero
As crianças não cabem nos bolsos
e ainda precisam empilhar corpos
como os brinquedos de uma guerra.”

Trecho de Meteorologia dos Corpos.

Espanto está à venda no site da Editora Medita.

 

About Carolina Carettin

Caipira e graduanda em Jornalismo. Já quis ser detetive, psicóloga e primeira bailarina do Bolshoi. Desistiu das duas primeiras carreiras, mas ainda dança, nem que seja só a macarena.

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